Bilinguismo Positivo

Quando moramos fora, transmitir a nossa língua materna para nossos filhos e filhas, é uma das maiores e mais preciosas heranças que podemos dá-los. 

Mas o processo de aquisição da língua, em um formato bilingue, trilingue ou plurilíngue, nem sempre se dá de forma natural; é preciso uma decisão que, ao ser tomada, acarreta inúmeras outras e muito, mas muito esforço para manter a frequência, constância e consistência – principalmente depois que as crianças começam a frequentar a escola, momento onde a língua local se instala e fortalece.

 

Há inúmeras formas de nos organizarmos para que o processo de aquisição da língua portuguesa se dê em bases sólidas, métodos diferentes para que a política linguística de cada família prospere, tendo como resultado a compreensão e fala da língua de herança.

 

Mas, se escolhemos morar fora do Brasil, porque o desejo de que as crianças falem português?

Pensar sobre isso é interessante, para compreendermos as nossas necessidades e razões. São inúmeros os fatores que nos motivam a querer que nossas crianças falem a língua portuguesa; que passam pela cultura Brasileira (parte das raízes que compõem sua identidade), o desejo que eles possam se comunicar com a família que mora no brasil,  porque é maravilhoso falar mais de um idioma, entre outros…

 

Há muitos desafios nesse caminho, como ser uma referência única do idioma no dia a dia, manter a frequência quando também é mais “fácil”pra gente falar a lîngua local, manter a consistência quando, mesmo em companhias de outras pessoas que falam a língua local, escolhemos falar o português com nossos filhos, o medo de que se falamos a língua portuguesa isso atrapalhe o desenvolvimento infantil / aquisição do idioma local ou até mesmo prejudique a adaptação da criança no meio/cultura em que vive.

 

Então, como a abordagem positiva poderia ajudar nesse processo? 

 

Partindo da premissa que as pessoas interessadas na aquisição do português como língua de herança são, em sua maioria, mulheres que vivem no exterior e pensando que, ainda hoje, a parte que compete a criação/ disciplina / educação das crianças ainda recai majoritariamente sobre os cuidados da mãe; e que ela que orienta, corrige, corta as unhas, limpa os ouvidos, pede para guardar os brinquedos, escovar os dentes ,arrumar o quarto, fazer a lição etceteras… pode ser natural que, depois de um tempo, as crianças não se sinta tão motivada a falar ou interagir no mesmo idioma; ou que inevitavelmente o associe com a “parte estressante” da rotina.

 

Claro que haverá sempre uma relação afetiva com o idioma de sua mãe ou seu pai, o que esse artigo propõe é que haja um olhar curioso sobre a dinâmica familiar + o processo de aquisição da língua concomitante a nossa forma de atuação como mães e pais e o nosso processo de desenvolvimento parental.

 

Quando a nossa língua materna é, na maior parte do tempo, para nossos filhos a língua do comando, das ordens, da parte “chata”da rotina isso gera uma desconexão conosco e, consequentemente, também com o nosso idioma.

 

A disciplina positiva é uma abordagem educacional que trabalha  na perspectiva de longo prazo, o foco interno de controle nas crianças; e o que isso quer dizer?

Quer dizer que, no lugar de fazer pela criança ou mandar que ela faça o que deve ser feito – foco de controle externo, onde alguém deve coordenar as ações – vamos trabalhar essa orientação a partir de uma abordagem onde o treinamento e acompanhamento são o método e a criança aprenda a pensar por si, a tomar decisões a acatar responsabilidades.

Para isso, a disciplina positiva promove em nós, adultos e cuidadores, um processo de auto-observação, uma mudança em nós; nos tira do lugar de autoritarismo e nos ajuda a criar uma autoridade baseada no respeito e gentileza. Essa mudança reflete em nossos filhos, pois gera e fortalece a conexão.

 

Quando temos acesso e nos apropriamos dessas ferramentas e criamos, dentro do que faz sentido para nós, uma reorganização dos nossos recursos internos e podemos ser modelo de vulnerabilidade,  autorregulação emocional, respeito, e gentileza; alcançamos a criança em um nível mais encorajador; isso nos empodera, na relação conosco e como lidamos com o que sentimos e na relação com a criança, nos dando mais recursos para acolher nossos filhos e fortalecer as bases da estrutura da sua inteligência emocional.

 

Imagina se, além da língua de herança, o português for também a língua que motiva, que confia, encoraja, conecta, a língua que fortalece a auto estima, a que promove o momentos “aha!”e ajuda a criança a fazer escolhas, a ser responsável, sentir-se pertencente e protagonista?….

 

Para praticarmos esse método de abordagem positiva, somamos aos desafios citados anteriormente (relacionados ao bilinguismo) a um processo interno de desconstrução, que visa descortinar e desobstruir  nossas vias de relação com nossos filhos. 

Nos libertamos da dinâmica do “porque sim / estou mandando”, ou da recompensa “se você fizer isso eu te dou aquilo”, ou punição “se não fizer o que estou mandando fica sem sobremesa”; e criamos uma dinâmica onde a criança vai (se) percebendo a real importância e impacto das suas ações no meio em que vive. Isso ouvindo, falando, decidindo e pensando em língua portuguesa.

 

 

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